Uso abusivo de eletrônicos afeta a inteligência e causa prejuízos emocionais e sociais, alertam especialistas

Lorrany Martins

Atecnologia está presente na sociedade e cada vez com mais abundância e agilidade. Mas o uso exagerado por crianças e adolescentes tem se tornado um desafio para as famílias na rotina do dia a dia.

De acordo com especialistas, o excesso na utilização das telas, como celular, tablet e notebook, pode trazer prejuízos em várias áreas de desenvolvimento, inclusive na inteligência. Por isso, o grande desafio das famílias agora é mudar hábitos de crianças e adolescentes.

A pediatra da Samp Marcela Tolomei observa que o uso de dispositivos móveis por menores aumentou nos últimos anos, trazendo sérias consequências.

“A tecnologia, quando usada de forma inadequada, abusiva e sem planejamento, ocupa espaço de atividades que são de extrema importância para a criança, impede o brincar ao ar livre e o contato com a natureza, e provoca a perda da curiosidade, que é um mecanismo inato na criança”, enumera.

Especialista em Tecnologia e Tendências, Arthur Igreja explica que o uso excessivo de tecnologias compromete a capacidade de concentração e aprofundamento nos assuntos, prejudicando o aprendizado. “Estamos nos tornando superficiais. Justamente, a parte cognitiva, para resolver problemas, é a que acaba sendo menos demandada”.

Segundo o especialista em Controle Emocional Leandro Cunha, tecnologia demais causa prejuízos emocionais e sociais.

“É preciso deixar claro que o problema não é a tecnologia, mas o excesso dela. Isso é um fato difícil de ser mudado, mas tem de ser controlado”, destaca.

Por isso, são necessárias mu- danças de hábitos em relação ao uso dos eletrônicos.

Para o psicopedagogo Cláudio Miranda, os pais precisam aprender a lidar com essa realidade. “Eles têm de descobrir outras atividades que possam colaborar para um desenvolvimento real dos filhos”, orienta.

“O problema dos pais não é limitar o tempo de uso diante das telas. É o que eles vão oferecer em troca”, completa.

 

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PREJUÍZO NO ENSINO

Novas regras

A dona de casa Anna Beatriz Ormond da Silva, 35, decidiu mudar os hábitos de uso de tecnologias em casa depois que o filho Arthur, de 10 anos, teve um rendimento escolar ruim e perdeu um ano.

“Antes, não tinha muita regra e ele acabou tendo um desempenho baixo. Foi então que mudamos os hábitos. Jogos, só no final de semana e depois de estudar. Mas, mesmo assim, tem horário. Percebo que, toda vez que ele tem o tempo livre e sem os eletrônicos, volta a brincar e soltar a imaginação”, conta Anna.

 

PROBLEMAS CAUSADOS POR TECNOLOGIA DEMAIS

 

Dificuldade de aprendizado

> O USO EXCESSIVO da tecnologia habitua o cérebro a alternar constantemente entre as tarefas, em alta velocidade, o que pode levar a uma redução no tempo de atenção, função primordial para retenção de informação e, consequentemente, de aprendizagem.

> O CÉREBRO de crianças expostas a altos volumes de tecnologia podem se adaptar a estímulos visuais frequentes, mudanças rápidas e pouca necessidade de imaginação.

> ALGUNS NEUROCIENTISTAS defendem até que esse excesso pode causar mudanças físicas no cérebro.

Atrasos no desenvolvimento

> O EXCESSO DA TECNOLOGIA traz uma menor interação com outras crianças ou adolescentes e, até mesmo, com a família. Isso está sendo relacionado a um atraso na fala de muitas crianças. A observação é a principal maneira pela qual as crianças aprendem. Enquanto ouvem, aprendem a língua, leem expressões

faciais e observam como os outros agem em situações emocionais.

Coordenação motora

> A CRIANÇA que se acostuma, desde muito pequena, a manipular tablet, celular e controles de videogames, pode ter sua coordenação motora afetada, pois o excesso de tecnologia leva à falta de estímulos motores adequados.

Interação interpessoal

> CRIANÇAS E ADOLESCENTES que usam constantemente a tecnologia

têm pouca interação com amigos, pais e irmãos. Isso pode levar à dificuldade de desenvolver adequadamente as habilidades interpessoais necessárias para navegar em situações desconfortáveis na vida adulta. A interação estimula a empatia, a capacidade de resolver problemas, a curiosidade, a inteligência e as habilidades de escuta.

> ELES PODEM DESENVOLVER uma dependência da tecnologia para se comunicar, prejudicando as habilidades em relacionamento.

Imediatismo constante

> AS CRIANÇAS e os adolescentes que ficam mais tempo usando ferramentas tecnológicas têm o dobro de chance de demonstrarem sinais de impaciência, segundo pesquisas.

> POR CAUSA dos circuitos de recompensa que as tecnologias e os jogos virtuais oferecem, o excesso dessas tarefas dificulta a capacidade de lidar com frustrações.

> TODA ATIVIDADE que é feita compulsivamente cria uma motivação bioquímica no cérebro. O corpo reage ao estímulo e começa a liberar dopamina, substância que dá a sensação de prazer.

O USUÁRIO passa a acessar as telas quando está entediado, como uma forma de acionar esse circuito, o que pode viciar.

 

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LIMITE NOS ELETRÔNICOS

Brincadeira de boneca

Uso de computador, tablet e jogos eletrônicos só por uma hora e meia ao dia na casa das irmãs Beatriz Santos, de 9 anos, e Caroline, de 7. Essa foi a regra que a mãe delas, Danielle Santos, colocou depois que as filhas tiveram mudanças de comportamento devidoaoexcesso de tecnologia. Para brincar, elas têm as bonecas e os patins. “Nas férias, elas ficaram mais li- vres em relação aos horários. Mas, notamos que estavam mais irrita- das, impacientes e brigando. Então, decidimos limitar o tempo”.

 

 

Isolamento social aumenta prejuízos

 

ESTÍMULOS EM CASA

A recomendação dos médicos é que o tempo à frente das telas – celular, tablet, computador ou televisão – não passe de três horas para o uso recreativo, dependendo da idade.

Mas a rotina em casa não obedece a tais recomendações. Com a pandemia, essas horas aumentaram consideravelmente. Pesquisas mostram que a média de tempo das crianças brasileiras com dispositivos eletrônicos é de cerca de 6 horas.

“Uma das piores consequências advindas do isolamento social foi, justamente, o uso excessivo de te- las. Diante da ausência de aulas, áreas de lazer, muitas famílias disponibilizaram eletrônicos por um tempo maior. O que não se imaginou era que esse tempo seria aumentado a cada semana, e agora perdeu-se o controle”, frisa a psiquiatra infantil Fernanda Mappa.

A pediatra Andréa Campagnolla alerta para os danos. “Nosso cérebro, de adulto, não tem maturidade para esse excesso de tecnologia, mas no cérebro de uma criança faz estragos ainda maiores. Tem a dificuldade de concentração, que atrapalha muito no aprendizado”.

Para ela, as regras têm de ser adaptadas à realidade de cada família, principalmente em meio à pandemia. “No entanto, não podemos normalizar o uso indiscriminado, achando que está sendo feito um bem à criança”, ressalta.

Já a pediatra Francine Vasconcelos, do Hospital Maternidade

São José, chama a atenção para os impactos sociais na vida dos pequenos.

“Quando as crianças se isolam em telas e computadores, perde-se a interação e a troca de vivência entre elas. Isso pode trazer prejuí- zos futuros na vida pessoal e no mercado de trabalho”, analisa.

Os especialistas ressaltam, porém, que é importante separar o uso recreativo, para diversão, e a utilização da tecnologia para o ensino.

A neuropsicóloga Amanda Amorim explica que as aulas são vistas por crianças e adolescentes como uma obrigação. “Para eles, esse momento não é visto como prazer. O uso para o lazer tem que ser limitado. Depois disso, a criança tem de fazer outras coisas, que não as telas, incentivar a conversar com pais, por exemplo”.

A neuropsicóloga Adriana Foz diz que a criança precisa de outros estímulos, além da tecnologia, para se desenvolver com equilíbrio. “O desenvolvimento emocional e o cognitivo requerem interação social, relacionamentos reais, o que tem sido um desafio para as famílias”.

“O desenvolvimento emocional e o cognitivo requerem interação social, relacionamentos reais.”

Adriana Foz, neuropsicóloga